O Brasil está vivendo seus dias prévios ao primeiro turno das eleições gerais de 2026 e explicitamente, um dos dois países mais poderosos do planeta (Estados Unidos), intenta influenciar diretamente tanto o resultado do pleito como os marcos do processo decisório do governo que venha a assumir em 1o de janeiro de 2027.
Um dos candidatos favoritos, o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) teria convidado o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (chanceler do governo Trump 2), a criar uma equipe de transição conjunta binacional. Na prática, é admitir uma subordinação direta, sem travas, sem eufemismos e nem pudor algum.
O que era para ser um escândalo, fica “normalizado” como parte das “narrativas” de campanha. Como uma sociedade chega a esse ponto de relativização? A noção de soberania parece ser para uma ampla camada da população algo abstrato, a não ser que toquem em algum ativo importante na vida cotidiana, como o meio de pagamento eletrônico nacional automático e não tributado, o PIX.
Ameaçar o PIX é ameaçar a sobrevivência de milhões de brasileiras e brasileiros. Isso é compreensível. E o tema das terras raras e minerais estratégicos? Proporcionalmente, essa riqueza mineral está para o século XXI como o petróleo e o combustível fóssil esteve para o século XX. Mas, o debate de uma estatal de Terras Raras, a Terrabras, foi pautado? Houve um movimento do tipo “O Petróleo é nosso”? Evidente que não.
Pelo argumento lógico, a “defesa da soberania” é uma bandeira política que só pode ser acionada em nível massivo, indo além da simbologia, escapando das armadilhas da chamada “guerra cultural”. Os passos são lógicos. A demonstração de uma liderança consequente, disposta a realizar os sacrifícios necessários, e o acionamento das maiorias, com grandes concentrações e objetivos diretos.
As lições tomadas pelos países latino-americanos quando passaram situações semelhantes ao longo dos séculos XIX e XX é a mesma. No corrente século, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e Cilia Flores em janeiro deste ano de 2026 na Venezuela é o exemplo do que não se deve fazer. Intensas manifestações populares em defesa da República Bolivariana não foram acompanhadas de um dispositivo militar à altura do desafio.
Se retrocedemos para o ano de 1982, algo semelhante se deu na Argentina. A ditadura militar - ilegítima e genocida - não se preparou corretamente para um conflito prolongado com o Reino Unido (patrocinado pelos EUA). Seria uma guerra convencional assimétrica de longo prazo e não uma vitória fácil como fora vendida pela mídia oficialista argentina. O resultado todos conhecemos e as mazelas seguem até hoje, com a exploração da riqueza natural oceânica por empresas ocidentais e sionistas.
A mobilização nacional deve vir conexa com a garantia de compromisso de melhoria real das condições materiais de vida. A conta é de chegada. Se o “objetivo soberano” traz ou não melhora direta nos índices de desenvolvimento humano e social? Porque, por mais estratégica que seja uma riqueza - como o petróleo - se os ganhos não estiverem diretamente alocados em políticas públicas universais, transferência de renda e aumento real de salário sem inflação significativa, tudo fica mais difícil.
Entendemos que as lições do Irã são transferíveis. Se o modelo de república islâmica é específico de uma sociedade, os elementos básicos não. Vejamos:
- a renda nacional estratégica (petróleo, gás e derivados) é preservada como forma de investimento em industrialização e novas cadeias de valor;
- a noção de soberania está diretamente vinculada às condições materiais de vida, apesar de bloqueios e sanções impostos por EUA e aliados;
- a sociedade civil não está atravessada por algoritmos manipulados por empresas estrangeiras (a exemplo do que ocorre no Brasil);
- as instituições formais têm um sistema de complementaridade onde não se pode hipotecar ou vender o país, apesar da alternância dos partidos políticos no comando do Poder Executivo.
Trazendo as lições para a América Latina, dada nossa complexidade e diversificação, alguns apontamentos mínimos podem indicar caminhos:
- mobilizar socialmente por objetivos diretos, como na campanha O Petróleo é nosso;
- comprometer publicamente que as riquezas primárias sejam industrializadas e a renda nacional alocada ao menos em parte para diminuir a desigualdade e garantir os aumentos reais de salário mínimo e benefícios (como Bolsa Família e BPC);
- admitir de uma vez por todas que a soberania nacional é a soberania popular na formação de um povo real, concreto e diverso, superando os complexos da herança maldita neocolonial e a estupidez de uma elite subalterna que se contenta em impor péssimas condições de vida internas e ser braço auxiliar de um Império Decadente, ou viver da parasitagem financeira e da venda de commodities primárias.
O que parece sair de um manual de geopolítica é mais que válido para os dias atuais e ganhará importância ainda maior nos anos que seguem.

